Centro

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Ondas na superfície
Na esfera existencial
Todo ponto é um centro.

Cuidado

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Cuidar do corpo sem cuidar da mente é ignorância.
Cuidar da mente sem cuidar do corpo é negligência.
Mas cuidar de mente e corpo sem cuidar do coração, é sofrimento, é violência.

Ninguém

terça-feira, 28 de junho de 2016

Num mundo perfeito ninguém precisa lutar por direitos
Num mundo perfeito ninguém precisa lutar
Num mundo perfeito ninguém precisa
Num mundo perfeito ninguém.

Alma de poeta

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Alma de poeta
é uma flor astral
que se desdobra para dentro e para fora.
Como todas as outras almas...

O tolo e o ouro

domingo, 26 de junho de 2016

ENCONTREI A TAL LÂMPADA MÁGICA!

Fazia uma caminhada. Hoje amanheceu frio. É bom pensar no frio (é bom pensar no calor também, mas caminhando acho melhor no frio). Aí avistei algo, um brilho que se destacava na areia da construção: era uma lâmpada, igual a do Aladdin! Juro!

Esfreguei, lógico. Todo feliz. Sujei a manga da malha. E nada de gênio. Me sentindo estúpido, quis arremessá-la para longe, mas podia dar um bom decorativo, então levei para casa. Lá chegando, fui lavar a peça. Todavia... Mergulhando-a na água, algo estranho: o bico da lâmpada começou a absorver a água, feito um ralo! Ficou mais forte, cada vez maior! Era um vórtex, algo sobrenatural. Puxava tudo, inclusive eu.

Uma grande espiral e acordei em outro lugar, só havia luz ao redor, não sei definir os tons. E uma voz se anunciou. Era grave como o rugido de um leão. Era o gênio! Disse que estávamos dentro da lâmpada e me ofereceu um desejo. Desejei ter três desejos, ele achou graça, mas não aceitou. Imagine minha situação... Todas as palavras do universo para escolher... Todos os problemas para sanar, as possibilidades.

O gênio batia o pé, estava inconformado com minha demora. Meu olho brilhava diante da dúvida. Até que me decidi:

- Gênio... Eu quero um sonho! Eu já nem tenho sonhado. Os dias são tão reais, tão sérios... Meu riso esmaeceu para baixo. O mundo não vai mudar com um desejo, e nem poderia eu viver num mundo ao meu agrado. O mundo é o que é! E eu... Eu só quero...

"Mas que sonho você quer? Fala de uma vez"! Me interrompeu o impaciente espírito.

- Quero o mesmo sonho todas as noites: estar em paz comigo e com todos os seres.

O gênio caiu de rir, mesmo não sendo físico. Disse que eu estava sendo ridículo, que nunca um pedido fora tão inutilmente desperdiçado... Se gabou de já ter parado exércitos, ter elegido grandes governantes etc etc. Me deu outra chance. " Pense bem... O que você realmente quer?", perguntou.
Foi aí que eu entendi que o gênio é quem não sonhava... Também, coitado, como poderia... Com toda aquela luz... Fiquei com poesia da situação dele. Então arrematei:

- Amigo, eu quero que tu sonhes. Que tenhas noites. E que cada sonho teu seja um sonho de paz de alguém do mundo.

Ele agradeceu. Bateu as mãos. Acordei debaixo do meu edredom. O dia estava frio... e pensei: "talvez fosse bom caminhar"...

Agora

sábado, 25 de junho de 2016

Mar no coração
Pensamentos
Nunca ancoram
Âncora no chão
Sentimentos
Que se afogam
Na vastidão
Partida e chegada
Saída e labirinto
Nada e imensidão...

Da gente; do bem

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"DROGA. Lá vem o Paulo, esse canalha. Maconheiro! Um lixo com pernas". Pensou Dona Dida, dona da banca de jornal. Paulo vinha para casa, descendo a rua. Voltava de um dia de trabalho daqueles... Quando passou defronte a banca, fez um gesto à dona, Dida, que o acenou hipocritamente, balbuciando maldições por detrás dos grandes óculos e falso sorriso. "esse cabelo parece um ninho de rato...", "essa tatuagem é nojenta...", "esse rosto furado...". Ela seguiu o sorridente rapaz com o olhar, desaprovando-o por seja o que for.

Quando Paulo passou pelo Bar do Gorjeta, havia um homem maltrapilho caído, certamente ébrio até o osso da alma, com o olhar perdido (parecia opaco, sem brilho). Paulo o ofereceu atenção, foi verificar se podia fazer algo pelo homem. Sempre acreditou que as pessoas devem fazer umas pelas outras o que fariam por si mesmas. Mas nada conseguiu fazer, o homem sequer o ouviu. Dona Dida ainda o encarava com a boca torta, caindo em rangidas. "Olha lá, encontrou outro vagabundo como ele, aí eles se entendem", resmungou a velha, enquanto ajeitava a imensa lente dos óculos. Riu sozinha em escárnio, alto o suficiente para Paulo virar-se em sua direção e se perguntar o que de tão bom lhe ocorrera para rir assim tão satisfeita. Acabou rindo um pouco com ela. Entrou no bar, falou com o Sr. Gorjeta, apontando para o homem caído. O movimento ia começar, era anoitecer, Gorjeta pareceu interessado em ajudar, mas queria era tirar o espanta-freguesia dali. Sorriu ao Paulo, que pensou estar fazendo algo de bom e saiu, seguindo seu caminho, com os tantos olhares reprovadores pesando sobre suas costas.

A poucos metros de sua casa, Paulo encontrou Boné, um moleque muito magro, mas muito ágil, esperto. Um garoto de 13 anos que mora ali perto, na rua, numa 'invasão'... Sim, porque... Seres humanos invadem as terras em que nasceram... Ao caminhar pela pátria, exercendo seu direito constitucional, ao existirem, se forem pobres, estarão sempre invadindo, vilipendiando... Pensava a maioria naquela rua, nos prédios, comércios e casas que haviam nos 800 metros de rua que vinham do ponto de ônibus até a casa de Paulo.

Boné perguntou a Paulo se tinha alguma coisa para ele. Paulo gostava do garoto e sempre conseguia um agasalho ou chinelo, um livro, um bico, um trocado, um lanche etc. O que quer que conseguisse era muito, pois o avô de Boné era seu único familiar conhecido e estava morrendo em plena rua, ao alcance de tantas mãos tão fechadas, prontas somente para socos. Paulo não tinha nada dessa vez. O garoto saiu arrasado para o lado do avô, que tossia.

Paulo chegou em casa. Ninguém estava lá, coisa rara. "Ótimo!", pensou, e cumpriu o ritual: deixou a mochila na cama, tirou os sapatos e a camisa, vestiu uma bermuda no lugar da calça e abriu a gaveta. Pegou seu cigarro enrolado à mão. Foi para a porta dos fundos, ninguém reparava no quintal neste momento, então com destreza ele subiu no muro para ficar na mangueira. Nos galhos altos, acendeu. Respirava, enfim. A cidade sufocava, tudo era sempre cabal e difícil, definitivo, exceto estar ali, pensando em não pensar. Nunca conseguia, sempre acabava pensando. A erva o deixava encucado, formulava grandes perguntas para si mesmo e arriscava decifrar as respostas, queria encontrar uma forma de ficar mais sábio, se preocupava com o mundo.

Ficou fumando e não percebeu que sua família havia chegado. Voltavam do mercado, haviam comprado cerveja, estavam falando alto. Ele suou frio, apagou o cigarro, deixou-o escondido na árvore e desceu rapidamente, mas o pegaram no pulo... Com os olhos vermelhos.

Mais gritaria, os mesmo xingamentos, mais uma surra. Que vacilo bobo. Podia ter saído, não precisava ficar pensando na própria casa. "Maconha é uma merda, coisa de bandido", seu pai repetia agressivamente. E enquanto bufava acendeu um cigarro para se acalmar... Acabou fumando dois. Ele não sabia, mas ia morrer em dois anos e meio, por conta do câncer de pulmão que ainda não deu sinais.

Paulo sentiu-se envergonhado, queria sair, mas agora era impossível. O jeito era estudar, então abriu as apostilas. Ele é auxiliar de enfermagem. Ganha o suficiente para ajudar a família e pagar seus estudos e alguma cultura, além da planta. Mas quer ser médico. E é um sujeito bastante dedicado. Paulo não se sente controverso. Diz que o fumo é coisa natural. Mas só ele pensa assim naquela rua... Rua de gente correta, que obedece a lei, essa gente de bem."
Copyright 2016 . Ronan Cardoso