Altíssimo esplendor do dia, canto do pássaro solar, pálpebra inevitável de abrir. O sol parece ter mais efeito dentro que fora de mim. Acordei cedo e entediado e todo mundo sabe que tédio é energia sendo espancada pela inércia, coisa perigosa. Então inventei de fazer uma caminhada no parque, para fazer jus a toda forma de existência que acordou para este momento em que estou vivo. Me alonguei.
E lá fui eu, com musicalidade. Desci as ruas farejando o frescor matinal por cada poro do corpo, da alma e da mente, bebendo lucidamente a atmosfera em passos de dança de partículas. Cheguei no parque sorridente e pleno de espírito, em respeito à natureza, e me embrenhei numa trilha mais fechada. Bosques me fazem sentir de forma mitológica as presenças de dentro e as de fora, gosto de caminhar em transe, meditando a jornada. Foi então que o encontrei, sentado à beira do caminho. Um garoto que lia concentradamente não o mundo, mas seu livro. Impliquei com isso. Fui lhe dizer que estava desperdiçando tudo. Ele nem notou que eu estava ali. Desperdicei meu tempo. Decidi continuar com minha própria loucura controlada, todavia assim que virei as costas o garoto disse:
- A terra inteira é um grande girassol ingênuo, um bulbo rodopiando, uma esperançosa flor atravessando a imensidão sob as promessas da luz. Viver é encontrar e se perder das suas paixões.
Assim que terminou de falar, ele sacou uma caneta do bolso e fez anotações. Só então percebi que não era um livro, mas uma espécie de caderno (ou diário). O rapaz, certamente poeta, teve a mesma ideia que eu, mas não podendo caminhar na via láctea, sentou-se em meio às árvores para que a galáxia caminhasse dentro dele.
Manhã incomum, pinceladas de sinais que parecem me dizer um quadro. Voltei para casa fazendo três caminhadas, as minhas e a do poeta e, ao chegar na portaria do prédio, esbarrei com minha vizinha, Linda, que segurava um vaso com um girassol. Ela me sorriu, sorri de volta, sem saber se era sonho meu, dela, da flor ou do poeta do parque...
Acordei entediado. Encucado, pensei mais do que fiz. Chateado por ter sido tudo um sonho, fui vencido pela inércia, sem esperança, sem poesia. Não celebrei o sol, não saí para caminhar... E nada me aconteceu.
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Amanhecer
sábado, 9 de julho de 2016
Eu tenho um amigo que não acredita no poder da poesia. Ele sempre diz que é coisa de gente romântica, que não acrescenta em nada ficar versando... Mas olha como as coisas são engraçadas... Hoje o encontrei por acaso, de mãos dadas com uma metáfora!
E ele sorria feito a lua minguante: escondendo o que faz. Eu fiquei atrás das entrelinhas, controversando o pescoço para observar de longe e, sorrateiro, segui seu raciocínio até que parou diante de uma recaída e cada um foi para um lado. Quem diria... Não o conhecesse bem, diria que estava apaixonado por um verso tatuado: “A vida é sempre noite se você não amanhecer”...
E ele sorria feito a lua minguante: escondendo o que faz. Eu fiquei atrás das entrelinhas, controversando o pescoço para observar de longe e, sorrateiro, segui seu raciocínio até que parou diante de uma recaída e cada um foi para um lado. Quem diria... Não o conhecesse bem, diria que estava apaixonado por um verso tatuado: “A vida é sempre noite se você não amanhecer”...
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Dentro
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Hoje o dia começou curioso... Entrou um sujeito bem vestido no ônibus. Segurava uma bíblia e começou a esbravejar:
- Deus não é senhor do mundo, mas de si mesmo. Assim ecoa fractal o seu verbo: "eu sou"! Não nascemos para sermos senhores de nada, exceto de nós mesmos!...
Passou os preocupados olhos pelos passageiros, encarando um a um, depois sentou-se em silêncio, para ler.
- Deus não é senhor do mundo, mas de si mesmo. Assim ecoa fractal o seu verbo: "eu sou"! Não nascemos para sermos senhores de nada, exceto de nós mesmos!...
Passou os preocupados olhos pelos passageiros, encarando um a um, depois sentou-se em silêncio, para ler.
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O tolo e o ouro
domingo, 26 de junho de 2016
ENCONTREI A TAL LÂMPADA MÁGICA!
Fazia uma caminhada. Hoje amanheceu frio. É bom pensar no frio (é bom pensar no calor também, mas caminhando acho melhor no frio). Aí avistei algo, um brilho que se destacava na areia da construção: era uma lâmpada, igual a do Aladdin! Juro!
Esfreguei, lógico. Todo feliz. Sujei a manga da malha. E nada de gênio. Me sentindo estúpido, quis arremessá-la para longe, mas podia dar um bom decorativo, então levei para casa. Lá chegando, fui lavar a peça. Todavia... Mergulhando-a na água, algo estranho: o bico da lâmpada começou a absorver a água, feito um ralo! Ficou mais forte, cada vez maior! Era um vórtex, algo sobrenatural. Puxava tudo, inclusive eu.
Uma grande espiral e acordei em outro lugar, só havia luz ao redor, não sei definir os tons. E uma voz se anunciou. Era grave como o rugido de um leão. Era o gênio! Disse que estávamos dentro da lâmpada e me ofereceu um desejo. Desejei ter três desejos, ele achou graça, mas não aceitou. Imagine minha situação... Todas as palavras do universo para escolher... Todos os problemas para sanar, as possibilidades.
O gênio batia o pé, estava inconformado com minha demora. Meu olho brilhava diante da dúvida. Até que me decidi:
- Gênio... Eu quero um sonho! Eu já nem tenho sonhado. Os dias são tão reais, tão sérios... Meu riso esmaeceu para baixo. O mundo não vai mudar com um desejo, e nem poderia eu viver num mundo ao meu agrado. O mundo é o que é! E eu... Eu só quero...
"Mas que sonho você quer? Fala de uma vez"! Me interrompeu o impaciente espírito.
- Quero o mesmo sonho todas as noites: estar em paz comigo e com todos os seres.
O gênio caiu de rir, mesmo não sendo físico. Disse que eu estava sendo ridículo, que nunca um pedido fora tão inutilmente desperdiçado... Se gabou de já ter parado exércitos, ter elegido grandes governantes etc etc. Me deu outra chance. " Pense bem... O que você realmente quer?", perguntou.
Foi aí que eu entendi que o gênio é quem não sonhava... Também, coitado, como poderia... Com toda aquela luz... Fiquei com poesia da situação dele. Então arrematei:
- Amigo, eu quero que tu sonhes. Que tenhas noites. E que cada sonho teu seja um sonho de paz de alguém do mundo.
Ele agradeceu. Bateu as mãos. Acordei debaixo do meu edredom. O dia estava frio... e pensei: "talvez fosse bom caminhar"...
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Da gente; do bem
sexta-feira, 24 de junho de 2016
"DROGA. Lá vem o Paulo, esse canalha. Maconheiro! Um lixo com pernas". Pensou Dona Dida, dona da banca de jornal. Paulo vinha para casa, descendo a rua. Voltava de um dia de trabalho daqueles... Quando passou defronte a banca, fez um gesto à dona, Dida, que o acenou hipocritamente, balbuciando maldições por detrás dos grandes óculos e falso sorriso. "esse cabelo parece um ninho de rato...", "essa tatuagem é nojenta...", "esse rosto furado...". Ela seguiu o sorridente rapaz com o olhar, desaprovando-o por seja o que for.
Quando Paulo passou pelo Bar do Gorjeta, havia um homem maltrapilho caído, certamente ébrio até o osso da alma, com o olhar perdido (parecia opaco, sem brilho). Paulo o ofereceu atenção, foi verificar se podia fazer algo pelo homem. Sempre acreditou que as pessoas devem fazer umas pelas outras o que fariam por si mesmas. Mas nada conseguiu fazer, o homem sequer o ouviu. Dona Dida ainda o encarava com a boca torta, caindo em rangidas. "Olha lá, encontrou outro vagabundo como ele, aí eles se entendem", resmungou a velha, enquanto ajeitava a imensa lente dos óculos. Riu sozinha em escárnio, alto o suficiente para Paulo virar-se em sua direção e se perguntar o que de tão bom lhe ocorrera para rir assim tão satisfeita. Acabou rindo um pouco com ela. Entrou no bar, falou com o Sr. Gorjeta, apontando para o homem caído. O movimento ia começar, era anoitecer, Gorjeta pareceu interessado em ajudar, mas queria era tirar o espanta-freguesia dali. Sorriu ao Paulo, que pensou estar fazendo algo de bom e saiu, seguindo seu caminho, com os tantos olhares reprovadores pesando sobre suas costas.
A poucos metros de sua casa, Paulo encontrou Boné, um moleque muito magro, mas muito ágil, esperto. Um garoto de 13 anos que mora ali perto, na rua, numa 'invasão'... Sim, porque... Seres humanos invadem as terras em que nasceram... Ao caminhar pela pátria, exercendo seu direito constitucional, ao existirem, se forem pobres, estarão sempre invadindo, vilipendiando... Pensava a maioria naquela rua, nos prédios, comércios e casas que haviam nos 800 metros de rua que vinham do ponto de ônibus até a casa de Paulo.
Boné perguntou a Paulo se tinha alguma coisa para ele. Paulo gostava do garoto e sempre conseguia um agasalho ou chinelo, um livro, um bico, um trocado, um lanche etc. O que quer que conseguisse era muito, pois o avô de Boné era seu único familiar conhecido e estava morrendo em plena rua, ao alcance de tantas mãos tão fechadas, prontas somente para socos. Paulo não tinha nada dessa vez. O garoto saiu arrasado para o lado do avô, que tossia.
Paulo chegou em casa. Ninguém estava lá, coisa rara. "Ótimo!", pensou, e cumpriu o ritual: deixou a mochila na cama, tirou os sapatos e a camisa, vestiu uma bermuda no lugar da calça e abriu a gaveta. Pegou seu cigarro enrolado à mão. Foi para a porta dos fundos, ninguém reparava no quintal neste momento, então com destreza ele subiu no muro para ficar na mangueira. Nos galhos altos, acendeu. Respirava, enfim. A cidade sufocava, tudo era sempre cabal e difícil, definitivo, exceto estar ali, pensando em não pensar. Nunca conseguia, sempre acabava pensando. A erva o deixava encucado, formulava grandes perguntas para si mesmo e arriscava decifrar as respostas, queria encontrar uma forma de ficar mais sábio, se preocupava com o mundo.
Ficou fumando e não percebeu que sua família havia chegado. Voltavam do mercado, haviam comprado cerveja, estavam falando alto. Ele suou frio, apagou o cigarro, deixou-o escondido na árvore e desceu rapidamente, mas o pegaram no pulo... Com os olhos vermelhos.
Mais gritaria, os mesmo xingamentos, mais uma surra. Que vacilo bobo. Podia ter saído, não precisava ficar pensando na própria casa. "Maconha é uma merda, coisa de bandido", seu pai repetia agressivamente. E enquanto bufava acendeu um cigarro para se acalmar... Acabou fumando dois. Ele não sabia, mas ia morrer em dois anos e meio, por conta do câncer de pulmão que ainda não deu sinais.
Paulo sentiu-se envergonhado, queria sair, mas agora era impossível. O jeito era estudar, então abriu as apostilas. Ele é auxiliar de enfermagem. Ganha o suficiente para ajudar a família e pagar seus estudos e alguma cultura, além da planta. Mas quer ser médico. E é um sujeito bastante dedicado. Paulo não se sente controverso. Diz que o fumo é coisa natural. Mas só ele pensa assim naquela rua... Rua de gente correta, que obedece a lei, essa gente de bem."
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A professora de levitação
terça-feira, 14 de junho de 2016
Minha professora de levitação é a maior figura! Na aula de hoje, levou uma bicicleta! Com rodas. Sim, é que achamos estranho, afinal, é a terceira aula e nada de sair voando por aí. Mas a mestra é dessas almas que, quando falam, encantam como água e estrelas. Ela explicou calmamente que ninguém levita do nada! É preciso ir tomando gosto aos poucos, senão o pé não sai do chão. No começo eu não entendi bem, mas então foi minha vez de pedalar. Fiz como ensinou a professora, fui pegando gosto pelo vento. Atravessei as paisagens noturnas feito um pássaro! Um pássaro com rodas, sim, mas eu pude sentir, por alguns instantes... A ventania... Corria e ela me abraçava, pegando carona comigo. E eu descobri: ela é que ensina a gente a voar. A gente vai se gostando, ela começa passando a mão no nosso rosto. Depois, os cabelos alucinam num rock'n roll de dedos-brisas, carícias, rajadas... Então eu pedalei mais forte, quis liberdade, abri os braços e, de repente, uma capivara! MERDA!
Tropecei as intenções. Finalmente saí voando, porém não da forma como eu queria. Foi emocionante, já que eu fiquei com mais medo de morrer de susto da capivara que da queda e, tendo sobrevivido às duas coisas, me senti triplamente vitorioso (a terceira conquista foi aprender a lição do dia). Voltei rindo, todo sujo e arrebentado, carregando a bicicleta que, por sorte, ficou intacta! A professora me perguntou o que eu tinha entendido do exercício. Respondi que, na vida, quem não pedala com vontade vira capivara, que é um bicho horripilante no escuro, sobretudo para quem pedala ambiciosamente. A mestra derramou uma sonora gargalhada, mas sabia que o exercício havia sido um sucesso! Voar pode levar ainda um tempo, entretanto já percebi que o segredo está no sentimento cultivado. Por um instante, foi tão bom sentir a brisa soprando meu rosto que, vivendo aquele momento, amando-a, tornei-me leve e cheio de vida... Isso é levitar por dentro e, se a gente aprende a levitar por dentro, nem precisa levitar por fora, porque a grandiosidade do ato é a mesma.
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Duas flores
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Havia duas benditas flores na porta da minha casa! Quem as teria deixado ali? E por que razão? Pobres das flores (foi o que pensei de imediato) arrancadas de sua suprema e breve fórmula de viver... Todavia, querendo crer no bem por detrás deste sinal, precisei de seguir uma hipótese solutiva apressadamente e, na falta de algo mais elaborado, conduzi-me a refletir acerca de uma possível boa intenção motivando este aromático sacrifício! Doce perfume, a ilusão. Nada mais tolo que tal degenerado eco de gestos prontos, baratos! Duvidei das duas flores. Duvidei de mim, também, afinal, quem quer sempre agir é o mistério intermitente, eu posso ser apenas um sonho das plantas, assim como as flores.
Não me foi possível elaborar uma resposta definitiva sobre a motivação essencial desta situação, contudo é curioso constatar que, por mais que queira eu encontrar formas de repensar minha reação diante das tão delicadas presenças florais, o encanto que as permeia é avassalador... Penso mais em coisas agradáveis que desagradáveis, quando contemplo a perfeição natural das pétalas e sua diminuta preocupação com a longevidade. Este pensamento igualmente não durou mais que sua própria beleza e minguou. Isso porque agora talvez eu tenha compreendido algo para além do imediato: nunca importa quem nos traz flores, mas o que temos dentro de nós e que é capaz de reparar não no que vivenciamos, mas no que é vivenciado por outrem.
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Estrelas ao Contrário
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Passei mal em plena rua. Ninguém me ajudou. Minha visão estava turva, eu cambaleava, pedindo ajuda, mas nada. Todos tão ocupados e eu sozinho na calçada perdendo consciência. Primeiro perdi a razão. Não podia me queixar, afinal, quem é que sabe de alguma coisa? Dava na mesma, mas... Ainda pensando assim eu perdi o equilíbrio e exagerei uma translação ao redor de mim mesmo, eu me orbitava e tropecei numa placa. Caí, tentando segurar alguma imagem do que sobrava de quem eu era, todas derramaram... A sociedade foi-me chovendo decadências, "estrelas ao contrário", alguém me sussurrava e eu não entendi. Perdi a identidade, perdi a noção. Não havia a quem recorrer, eu já não era ninguém. Anoiteci na rua, quase congelei. O tempo passou sem que eu notasse e, quando emagreci, quando eu não tinha nada, quando eu morri... Tiraram uma foto minha. O vivo enoja, enjoa, dá asco! O morto é coisa, é fácil. Coisa pode virar arte. Gente só pode ser arte se for gente ou coisa. Mas vivo eu era indigesto, eu era indigente.
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O Oceano de Asfaltos
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Hoje eu falei com a autoridade consular das árvores! Havia sal de pele, acidez, suor escorrendo frio, avenida, dígito, campainha e uma arritmia de brisas na minha cabeça, enquanto os motoboys atravessavam o estreito espaço entre os carros agarrados a mísseis! E ela, a plena de mistérios estrangeiros, toda musical, estava revoltadíssima, era um fogo sigiloso, uma língua mafiosa, queria saber a razão dos maquinários todos marulhando nesse oceano de asfaltos - me veio com uma esgrima de palavras! Emudeci, não tinha entendido nada! Afinal, vivo é para me confiar às placas, sigo o fluxo, não entendo de árvores nem de procedimentos diplomáticos... Neguei, pela terceira vez essa semana, o chamado para uma jornada interior.
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Sobre o Difícil
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Hoje à tarde fui dar um rolê aqui perto, numa quadra "velha" de Brasília. Quadra bonita, cheia de gente intrigante. Eis que encontrei uma grande figura, esse sim velho, o Sr. Antunes! Falo assim com todo o respeito, o negócio é que ele é bem velho mesmo (diz a lenda que tem 108 anos)... Ninguém sabe ao certo. Quando estavam construindo Brasília, dizem, ele já era velho! Sua longa barba branca e milhares de histórias escondem ou revelam quantas voltas já deu ao redor do sol... Não dá para saber. O caso é que este curioso senhor costuma ficar conversando com as pessoas na rua, especialmente os jovens! E fica falando coisas cheias de sentido! É terrível!! Hahaha.
Ele me parou hoje...
Falou sobre a palavra "difícil". Falou, não. ensinou. Contou que é uma ilusão perigosa, uma grande armadilha. Insistiu que difícil é coisa que botaram na minha cabeça, porém não existe. Falou entusiasmado. Ele quis provar seu argumento. Disse assim: "se eu te pedir para catar 10 grãos de feijão, é difícil?". Eu fui obrigado a dizer: "claro que não, Sr. Antunes"!! Velho malandro e eu de mané. Daí ele prosseguiu, com um brilho aceso nos olhos: "se eu te pedir para catar 50 grãos, é difícil?". E eu, já quase entendendo, ficando pasmo, arrematei: "... Não, Sr. Antunes...". Ele realmente parecia se divertir com meu estado. O ancião continuou: "se eu derramar 20 sacas de feijão aqui e VOCÊ tiver que catar ( neste momento cutucava-me no peito, arqueando a sobrancelha), vai ser difícil?". E eu... "Poxa, Sr. Antunes... 20 sacas, né...". O velho vibrou os braços: VIIIUUU??!... Esse é o nosso maior inimigo!! É se convencer de que a situação mudou! Mas não mudou, a coisa é a mesma, a atividade é a mesma, só exige paciência porque requer mais tempo, só que as pessoas não querem esperar e, por isso, quanto não se perdeu e ainda se perde, na história?...". Ele passou a mão na barba, me deu uma cotovelada e concluiu: "hã?".
Voltei para casa branco como os poucos cabelos do sábio Antunes... E tropecei num buraco negro de pensamentos cósmicos.
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A vida imagi-nada
sexta-feira, 22 de abril de 2016
Larissa estava entediada. Não escondia o marasmo que sempre sentia. Não pelas coisas que desejava, apenas pelas que já tinha. É que tudo parecia certo e parado, parecia ser o mesmo dia... E Larissa se sentia rasa, no fundo não se satisfazia. Será que era fria? Pensava. E pensar a mataria!
Precisava de um desencontro, de perder a realidade, desfazer seus conformismos. Isso a transformaria: o movimento, o novo. Larissa não sabia ao certo se era só um sentimento bobo ou se sua vida dependia de atitude e de desapego (e logo!).
Mas vazia daquilo que negava, tomou a pior decisão. Caiu pouco a pouco num nada e, com medo, pôs os pés no chão. Larissa descobriu quem era, então. Tarde, todavia. Sua própria alquimia inverteu sua natureza. Virou uma lagarta e só aí descobriu: que negou para si mesma já ser borboleta.
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