Correnteza

terça-feira, 7 de junho de 2016

Todos querem falar em culpa
Eu não os culpo se gritam ou sussurram isso
São apenas desculpas reconfortantes
Eu não nos vejo cientes, empoderados
Eu vejo cinzas... provocadas pelo fogo
À mercê do ar, destinadas a nutrir a terra
Bocas, numa íntima conversa entre fenômenos
Poderia não ser assim?
Poderíamos, de fato, ter poder sobre nossas vidas?
Quanta grandeza sentimos? Quantas realizamos?
Somos falhos?
Acenamos com a bandeira do orgulho
Passeia de mão em mão nosso melhor legado
Sorrimos, confusos diante uns dos outros
Desejamos a tempestade, mas nós a somos e passamos
Espera-se que todos saibam sempre fazer o seu melhor
"É sua história aqui, sua existência! Queime tudo!", dizem
Mas o sangue esfria e a chuva cai sem nada de especial
Isso é falta de poesia
Não há culpados, o que há é quem culpe!
E isso é falta de consciência
Não de capacidades
Esse olhar para x e não para y é nossa realidade
Somos um sonho com pernas, mas nossa vida desperta
É uma busca por asas
E quando voamos, queremos nadar
E quando nadamos, queremos culpar alguém
Porque não voamos
Nós não vemos a pessoa, vemos nossas ideias sobre ela
Sobre nós mesmos...
Sobre o que "aprendemos" a pensar?
Pensar não é um ato estático, condicioná-lo é insanidade!
Questiono o momento que sou, porém não ouso culpar-me
Meus limites nunca foram para os de fora não entrarem
Eles apenas me aprisionaram em ideias que guardei
E eu posso ver além disso, eu posso sentir, eu sei
Este momento em que somos é tão vastamente complexo
Tudo é tão profunda e perfeitamente costurado
Maravilho-me diante do momento
Como posso perder meu tempo buscando desculpas
Não me culpo, ocupo. Ocupo o espaço de minha identidade
Nada está sob controle! Viver não tem mapas!
Sou porque o mundo me é sem aspas
Eu não sigo a correnteza, eu a sou
Compreender este aqui é, talvez, o maior dos passos
Não se dança conforme a música, mas conforme o ritmo
O ritmo é resultado do mundo
Ou o mundo é resultado do ritmo?
Cabe apenas a você decidir
Mas decida apenas por si mesmo
Não é um espelho, nem a luz, nem a visão
Não há somente uma causa para o reflexo
Nem somente um efeito.
Olha direito.

A poesia

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A poesia não é a cadeira de balanço da consciência
É a árvore intacta, plena de possibilidades
Árvore professora, mestra natureza, universidade transubstancial
O poeta não corta a árvore para dela se servir
O poeta sabe que a árvore é um ser magnífico
O que encanta o poeta é a beleza inerente e a inteligência da semente
Linhas e cores
Quando a vida é mais fresca à sombra de uma árvore
Quando o vento alucina as folhas
Quando o fruto está maduro
Tudo isso, o aroma intrínseco, a vida harmônica
É natural o sonho do poeta
A poesia não é a cadeira de balanço da consciência
É a árvore intacta, universidade transubstancial...

Leve

domingo, 5 de junho de 2016

Eu não sou o tipo de pessoa que fica "pisando em ovos". Eu não estou nem aí para o seu conceito de certo ou errado, ordem ou desordem, importante ou banal... Para mim, você não sabe de nada! Só o que te sobrou do que veio de fora. Mas por dentro, o que é que você oferece a partir daí? Ovos, talvez... Algo quebrantável, cascas, vida... Você oferece a própria vida ao tempo, ao existir, a troco de quê, mesmo? Ovos, talvez, algo insustentável! Útil, quem sabe bom, às vezes, mas pouco, sozinho. Já eu... Eu sobrevoo as cascas, orbito a dúvida, não creio em lógicas só porque fazem sentido, eu quebro a cara... Aprendo o mundo como quem examina universalidades, eu não busco agradar quem quer que seja, eu sou o seja, o resto é o faça-se e, no centro, há a terra, a extensão viva de sonhares, o planeta rodopiando os seres, deixando-os confusos, trocando os olhares, tentando entender... E eu ali, assistindo tudo e aprendendo a viver-me mais que pensar-me, no bem. Eu sou o tipo de pessoa que gosta de pisar o pé no chão, sabendo que está voando no meio do espaço... Afinal, na esfera existencial, todo ponto é um centro, inclusive o ovo pode ser o centro do universo, mas esse papo não é novo. Importante é você saber: tudo se vive interiormente, então repense (com poesia) as paisagens que te habitam o ser. Te sobrevoo o ter. Choque teus ovos. Cheque teu ver. Eu piso firme... Feito a luz do amanhecer. 

Do Centro

sábado, 4 de junho de 2016

A única coisa que permanece é a mudança
O mesmo brilho que me alumia os passos pode me cegar
Quando falo de mim, não estou falando de alguém
O único Deus que posso ver é o mundo
Cada erro é um desvio para fora de mim
A vontade pode (ou não) ser sua própria extinção
Quando falo de paz, não é de mim que falo
A mesma vida divide a substância-corpo existencial
A vontade presencia os fatos, crê nas regras
Cada caminho é um caminho para dentro de mim

As Árvores

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Contei às árvores que também sou a noite. "Então mostre-nos suas estrelas", ela suplicaram-me. E eu lhes disse: "eu sou a noite, não o sonho que a habita".

O Livro do Mundo

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A Natureza é nossa primeira e grande mestra, nossa professora... Somos resultantes dos processos da Natureza e nela podemos encontrar reflexos do inominável em nós. Todo o nosso conhecimento, nossa saúde, nosso existir, tudo isso faz parte do banquete servido pela Natureza... Nós não somos seus hóspedes, somos seus filhos - compartilhamos muito mais que sua substância.

Não somos irmãos? Não somos fruto da ação do cosmos no espaço-tempo Terra?

Está diante de nós: o livro do mundo só não lê quem não quer!

Mas eu me encanto.
Eu amo seguir o rumo de um ramo
e ver no que árvores, que jardim,
tudo se dará, as profecias climáticas,
as vivências metafísicas,
toda a orquestra de falhas não fará mais sentido,
nós não mais tocaremos sons,
nós tocaremos nossas almas...

Estrelas ao Contrário

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Passei mal em plena rua. Ninguém me ajudou. Minha visão estava turva, eu cambaleava, pedindo ajuda, mas nada. Todos tão ocupados e eu sozinho na calçada perdendo consciência. Primeiro perdi a razão. Não podia me queixar, afinal, quem é que sabe de alguma coisa? Dava na mesma, mas... Ainda pensando assim eu perdi o equilíbrio e exagerei uma translação ao redor de mim mesmo, eu me orbitava e tropecei numa placa. Caí, tentando segurar alguma imagem do que sobrava de quem eu era, todas derramaram... A sociedade foi-me chovendo decadências, "estrelas ao contrário", alguém me sussurrava e eu não entendi. Perdi a identidade, perdi a noção. Não havia a quem recorrer, eu já não era ninguém. Anoiteci na rua, quase congelei. O tempo passou sem que eu notasse e, quando emagreci, quando eu não tinha nada, quando eu morri... Tiraram uma foto minha. O vivo enoja, enjoa, dá asco! O morto é coisa, é fácil. Coisa pode virar arte. Gente só pode ser arte se for gente ou coisa. Mas vivo eu era indigesto, eu era indigente.
Copyright 2016 . Ronan Cardoso