A professora de levitação

terça-feira, 14 de junho de 2016

Minha professora de levitação é a maior figura! Na aula de hoje, levou uma bicicleta! Com rodas. Sim, é que achamos estranho, afinal, é a terceira aula e nada de sair voando por aí. Mas a mestra é dessas almas que, quando falam, encantam como água e estrelas. Ela explicou calmamente que ninguém levita do nada! É preciso ir tomando gosto aos poucos, senão o pé não sai do chão. No começo eu não entendi bem, mas então foi minha vez de pedalar. Fiz como ensinou a professora, fui pegando gosto pelo vento. Atravessei as paisagens noturnas feito um pássaro! Um pássaro com rodas, sim, mas eu pude sentir, por alguns instantes... A ventania... Corria e ela me abraçava, pegando carona comigo. E eu descobri: ela é que ensina a gente a voar. A gente vai se gostando, ela começa passando a mão no nosso rosto. Depois, os cabelos alucinam num rock'n roll de dedos-brisas, carícias, rajadas... Então eu pedalei mais forte, quis liberdade, abri os braços e, de repente, uma capivara! MERDA!

Tropecei as intenções. Finalmente saí voando, porém não da forma como eu queria. Foi emocionante, já que eu fiquei com mais medo de morrer de susto da capivara que da queda e, tendo sobrevivido às duas coisas, me senti triplamente vitorioso (a terceira conquista foi aprender a lição do dia). Voltei rindo, todo sujo e arrebentado, carregando a bicicleta que, por sorte, ficou intacta! A professora me perguntou o que eu tinha entendido do exercício. Respondi que, na vida, quem não pedala com vontade vira capivara, que é um bicho horripilante no escuro, sobretudo para quem pedala ambiciosamente. A mestra derramou uma sonora gargalhada, mas sabia que o exercício havia sido um sucesso! Voar pode levar ainda um tempo, entretanto já percebi que o segredo está no sentimento cultivado. Por um instante, foi tão bom sentir a brisa soprando meu rosto que, vivendo aquele momento, amando-a, tornei-me leve e cheio de vida... Isso é levitar por dentro e, se a gente aprende a levitar por dentro, nem precisa levitar por fora, porque a grandiosidade do ato é a mesma.

Olhos e ouvidos

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ah, vozes do mundo
coro da natureza circundante
amigos, irmãos, parentes distantes...
deixem-me só.
deixem-me ausente.

Esqueçam-se de quem fui
pois eu já não sou senão dúvidas...
nada tenho a oferecer
não lhes sei o que dizer
eu só sei calar-me em bobos risos

Quero ouvir apenas o sol
efervescendo vida
daqui, das nuvens escuras e frias
topo da montanha que me escalei
e nada encontrei, senão silêncios.

Tenho saudades do que nunca veio
sinto tanta falta de tudo que perdi
que já não sei o que ganho
em minhas mãos nada guardei
exceto meus olhos e ouvidos...

Cabe no bolso do mágico

domingo, 12 de junho de 2016

A linha segue intacta
pronunciada pelos tudos
os todos.
Pelas luzes desenhada
na proporção de uma ideia
fosca, alheia
Negociando um torpor
factual
portátil
cabe no bolso do mágico
mas nunca se esgota em
mero episódio isolado

A luz-linha é um acaso
forçado.

Paisagens

sábado, 11 de junho de 2016

Quando me olho espelhado, quem eu sou?
O reflexo tardio
A face de um lago
Ou as imagens se olhando somos um todo maior?

Há muito mais...

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Há muito mais do que o que se manifesta através do comportamento do ser. A raiz, o próprio SER, é algo que flui por entre as informações, identificando-se, realizando a si, contudo, esse SI é algo maior, outro resultado da natureza do universo, não condicionado ao comportamento, mas vivenciando-se através deste último.

O engano está em assumir que o comportamento é a identidade absoluta do ser, aprisionando-o, destarte, numa imagem historicamente situada, quando, na verdade, o ser pode deliberadamente não ser. É a liberdade sem rosto da consciência (o tal do livre-arbítrio) que fundamenta a experiência individual do organismo consciente.

A própria constituição do tecido existencial só é possível graças às intermináveis combinações entre as informações que o compõem, mas como julgar a natureza do universo a partir de suas manifestações? Contemplo, admirado, toda a resplandecente manobra do ocaso, contemplo tudo, todavia resta a questão: quem vestiu os meus olhos para saber-me?

Ninguém andou por sobre minha pele, ninguém sentiu este ponto no espaço-tempo. Quem pode julgar-me? Como posso julgá-los? Não vivo para sobreviver, eu não quero lutar, eu quero o tempo, o bom tempo, a raiz, o tronco, as folhas e o vento. Ouvir as paisagens em que este ponto autoconsciente existe, é isso que me importa: a árvore!

Duas flores

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Havia duas benditas flores na porta da minha casa! Quem as teria deixado ali? E por que razão? Pobres das flores (foi o que pensei de imediato) arrancadas de sua suprema e breve fórmula de viver... Todavia, querendo crer no bem por detrás deste sinal, precisei de seguir uma hipótese solutiva apressadamente e, na falta de algo mais elaborado, conduzi-me a refletir acerca de uma possível boa intenção motivando este aromático sacrifício! Doce perfume, a ilusão. Nada mais tolo que tal degenerado eco de gestos prontos, baratos! Duvidei das duas flores. Duvidei de mim, também, afinal, quem quer sempre agir é o mistério intermitente, eu posso ser apenas um sonho das plantas, assim como as flores.

Não me foi possível elaborar uma resposta definitiva sobre a motivação essencial desta situação, contudo é curioso constatar que, por mais que queira eu encontrar formas de repensar minha reação diante das tão delicadas presenças florais, o encanto que as permeia é avassalador... Penso mais em coisas agradáveis que desagradáveis, quando contemplo a perfeição natural das pétalas e sua diminuta preocupação com a longevidade. Este pensamento igualmente não durou mais que sua própria beleza e minguou. Isso porque agora talvez eu tenha compreendido algo para além do imediato: nunca importa quem nos traz flores, mas o que temos dentro de nós e que é capaz de reparar não no que vivenciamos, mas no que é vivenciado por outrem.

Luta

quarta-feira, 8 de junho de 2016

A vida está pronta para presentear os audazes
Quem clama
Os que se esquivam lutam consigo próprios
Quem chama
Somente os fracos se tornam fortes...
Copyright 2016 . Ronan Cardoso